Entenda por que a Disney está encrencada com a comunidade gay

No começo do mês de junho um grupo com cerca de 60 gays estava no Enchanted Rose, um bar do sofisticado Grand Floridian Resort, da Disney. Aquela seria a última parada do Gay Pride Disney Monorail Crawl, um encontro informal anual que serve de aquecimento para quase uma semana de festas e ventos que atraem milhares de LGBTs+ e simpatizantes a Orlando a cada verão.

O grupo tem homens homens com seus 30 e poucos anos a pessoas que chegaram a um ponto da vida em que se recusam a dizer quantos anos têm. Muitos deles comentam como a atmosfera remonta a uma época em que os pequenos bares gays eram um centro da comunidade “queer”, antes que o Grindr e o circuito interminável de festas surgissem e mudassem tudo.

Dan Hawley, 39, e seu marido, Ed Czemerych, idade não revelada, são os organizadores da noite há quase uma década. O casal está entusiasmadíssimo com a noite que se aproxima — especialmente Ed, que está todo paramentado: chapéu de cowboy cor de laranja, calças combinando, camisa verde claro, gravata estilo cowboy.

Segundo reportagem do Valor, o casal é louco pela Disney e organiza sua vida em torno de viagens aos parques. “Se você quiser usar as asas da Sininho ou usar um broche de arco-íris em formato de Mickey em seu chapéu, se sentirá confortável.”

Antes que o monotrilho que liga os resorts da Disney em Orlando nos leve para a próxima parada, Ed subdivide todos do grupo em “rookies” — os novatos e os veteranos.

A reportagem ressalta que desde que foi fundada por Walt Disney, há quase um século, a companhia, com sua oferta de desenhos animados, filmes infantis e enormes parques temáticos, é mais conhecida como uma marca voltada para o núcleo familiar tradicional. Mas nos últimos 30 anos ela também se tornou uma meca da comunidade LGBT+, que corre para as suas propriedades todos os anos para o que se tornou informalmente conhecido como “Gay Days” (Dias Gays).

Este ano as celebrações queer foram rudemente interrompidas. A Disney está enfrentando possivelmente a pior crise de publicidade de sua história, depois que executivos decidiram inicialmente não assumir uma posição contra um projeto de lei na Flórida que ficou conhecido como “Don’t Say Gay” (Não diga gay), que foi sancionado pelo governador republicano Ron DeSantis em março.

O projeto permite que famílias com filhos de até 9 anos processem um distrito escolar se um professor se envolver em qualquer tipo de discussão sobre “orientação sexual ou identidade de gênero”. Segundo o Valor, uma pergunta como “tudo bem ter dois pais?” não pode ser respondida.

O projeto de lei recebeu o apoio entusiasmado de DeSantis, que está competindo com Donald Trump pelo apoio da ala “Make America Great Again” do Partido Republicano antes da esperada candidatura à Presidência dos Estados Unidos em 2024.

A maioria daqueles que estão no monotrilho vê o furor “Don’t Say Gay” mais com irritação do que com indignação — um exemplo irritante de realpolitik colidindo com algo que deveria ser alegre e despreocupado. Eles poderiam se sentir mais fortes se o presidente-executivo Bob Chapek não tivesse posteriormente mudado de rumo após uma revolta entre os funcionários da companhia — muitos deles gays —, passando a ser contra o projeto de lei.

Uma pessoa presente, um funcionário da Disney disse ao repórter: “Bob Chapek violou um dos cinco princípios da Disney — a inclusão. Ele pretende se reeleger no ano que vem e espero que não votem nele”.

De acordo com o Valor, embora o executivo de relações públicas que recebeu a culpa pela resposta malfeita ao projeto de lei “Don’t Say Gay” já tenha saído da companhia, no mês passado o conselho de administração estendeu o contrato de Chapek por mais três anos.

Durante décadas, os executivos da companhia tentaram cortejar a comunidade gay, mantendo ao mesmo tempo essas propostas escondidas da direita conservadora. Eles fizeram isso por duas razões, nenhuma delas inerentemente ruim. Primeiro, elas geravam uma fonte de receitas pequena, mas não insignificante, de um grupo de clientes conhecidos por gastar muito. Segundo, elas promoveram a boa vontade entre os funcionários da companhia, muitos dos quais se identificam como LGBT+.

A reportagem diz que segundo Sean Griffin, professor de cinema e TV da Universidade Southern Methodist do Texas, a Disney identificou pela primeira vez a comunidade LGBT+ como um mercado-alvo na metade dos anos 80. “A companhia passava por momentos difíceis”, diz ele, relembrando como em 1984 o conselho se defendeu de uma tentativa de compra de um investidor que eles temiam que iria desmembrar a Disney e vendê-la aos pedaços. Pouco depois, uma nova equipe administrativa liderada pelo presidente-executivo Michael Eisner foi nomeada para recuperar a empresa.

“A estratégia que eles desenvolveram foi basicamente ‘precisamos ganhar dinheiro rapidamente da maneira como pudermos’”, afirma Griffin, autor de “Tinker Belles and Evil Queens: The Walt Disney Company from the Inside Out”. Eisner e sua equipe perceberam que havia “esse pequeno culto de seguidores que gosta de nossos produtos e que não atendemos especificamente, e ainda assim eles nos prestigiam”, diz ele.

O professor dia que desse modo, segundo Griffin, a Disney começou a “fazer um aceno” à comunidade LGBT+, embora “de uma maneira não manifesta”. Ele descreve esses pequenos “Easter eggs” que a companhia começou a “deixar por aí”. Úrsula, em “A Pequena Sereia” (1989), tinha uma estranha semelhança com uma drag queen. Cicatriz, em “O Rei Leão” (1994), parecia um pouco afetado. Seria “A Bela e a Fera” (1991) uma metáfora para a crise da aids? Não que os gays tivessem que forçar demais a vista: muitas personagens, de Dumbo ao Patinho Feio, eram estranhos evitados por serem diferentes, apenas para que essas diferenças se tornassem a chave para o seu sucesso.

Esses sinais eram intencionalmente mais difíceis de encontrar no fim dos anos 80 e nos anos 90, diz Griffin. “Os executivos da Disney acenaram para a comunidade LGBT+, mas de uma maneira que muitas famílias conservadoras não sabiam o que estava acontecendo.”

A apresentadora da Fox News Laura Ingraham disse que a companhia está “empurrando uma agenda sexual para crianças pequenas […], propaganda para aliciamento”. Seu colega Tucker Carlson acusou a companhia de se comportar como um “agressor sexual”. O Twitter está cheio de pessoas prometendo #boycottdisney.

A questão que os executivos da Disney agora enfrentam é se eles poderão continuar cobrindo a empresa com a bandeira do arco-íris para um grupo de clientes e removê-la para outro sem pagar um preço por isso. Griffin não avalia suas chances. “Tudo está polarizado. Então, eles estão tendo que repensar sua estratégia porque ela não se enquadra mais na dinâmica.”

A Disney aluga o espaço para os promotores, mas ele está ocupado principalmente por membros do próprio elenco da empresa, que vendem pochetes à prova d’água para celulares e barcos cheios de bebidas.

Os convidados mais jovens, a maioria nas faixas dos 20 e 30 anos, se espalham pela praia artificial em frente ao palco do DJ. Homens mais velhos se divertem bebendo cerveja em botes infláveis no “Castaway Creek” (Córrego do Náufrago), um “rio preguiçoso” de 600 metros de comprimento que circunda a propriedade.

A reportagem cita ainda que esse mundo é cada vez mais incerto para muitos gays, que temem que a erosão dos direitos LGBT+ esteja apenas no começo. Em uma opinião concordante que acompanhou a revogação do direito constitucional ao aborto pela Suprema Corte no mês passado, o juiz Clarence Thomas fez um alerta, afirmando que a corte deverá reconsiderar decisões anteriores que sistematizam o direito de casais do mesmo sexo de fazer sexo e se casar. Esses casos — Lawrence contra o Texas e Obergefell contra Hodges — são os dois pilares dos direitos dos homossexuais nos EUA.

Os legisladores da Câmara dos Deputados dos EUA responderam à intervenção de Thomas com um projeto de lei que forneceria proteções federais a casamentos de pessoas do mesmo sexo, embora não esteja claro se a legislação conseguirá votos suficientes no Senado e chegar à mesa do presidente. Mesmo que conseguir, ela não ofereceria o mesmo nível de proteção conferido pela decisão da Suprema Corte. “Se a decisão Obergefell for revertida, o projeto de lei nada fará para impedir que os 14 estados que nunca aprovaram a igualdade no casamento deixem de emitir licenças de casamento para casais do mesmo sexo”, afirma Mebust.

Em 1985, quando a Disney começou a cortejar a comunidade gay, ela lançou um novo lema — “Parece que começamos algo!” — que resume a situação que agora enfrenta a empresa e o mundo empresarial americano em grande escala. Acontece que não acabou. Nem de longe. (Tradução de Mario Zamarian).

 

 

 

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